BLOG DO JAIRO GOMES

Cuidar sem adoecer: psicóloga alerta para a saúde mental dos cuidadores familiares

Especialista destaca riscos de ansiedade, depressão e esgotamento entre familiares que assumem o cuidado contínuo de pessoas dependentes 

Com o envelhecimento acelerado da população brasileira, uma figura tornou-se central, porém muitas vezes invisível, dentro dos lares: o cuidador familiar. Ao lado de um familiar adoecido ou dependente, existe uma figura central que pode estar em sobrecarga física e emocional.
 

Segundo Ana Paula Pessoa, psicóloga da Clínica Florence Recife, primeiro hospital de transição de cuidados do Norte/Nordeste, diversos estudos demográficos e de saúde pública no Brasil apontam para um perfil muito bem delineado. Quem está na função de cuidado familiar geralmente são mulheres (esposas ou filhas), na faixa dos 45 aos 65 anos, que reside com a pessoa adoecida. Essa dedicação costuma ser intensiva, ultrapassando 12 horas diárias, o que frequentemente exige dedicação exclusiva, sendo obstáculo a atividades laborais e até de lazer. Assumir o cuidado contínuo provoca o que na psicologia pode ser chamada de ruptura biográfica. A vida do cuidador entra em uma espécie de pausa, e emocionalmente, o impacto pode ser devastador. “O processo de adoecimento pode trazer consigo uma reconfiguração profunda nos vínculos familiares, marcada por uma transição delicada na dinâmica de cuidado. Esse fenômeno ocorre quando familiares assumem decisões e responsabilidades de quem, anteriormente, exercia a própria autonomia. Diante desse novo cenário, as responsabilidades se invertem. Tutelar o bem-estar e as decisões fundamentais por aqueles que vivenciam fragilidades crônicas”, explica a especialista.
 

Nesse processo, é possível vivenciar um luto antecipatório, assistir o declínio progressivo físico e/ou cognitivo de quem se ama. Isolada socialmente, a pessoa cuidadora pode vivenciar uma ambivalência afetiva: há afeto e vínculo fortalecido, mas também frustração e culpa pelos desafios de uma rotina de cuidados que, geralmente, não contempla o autocuidado. É importante considerar também a existência da “romantização do cuidado” que invalida socialmente o sofrimento psicossocial de quem cuida.
 

“Nesse sentido, o estresse crônico e a falta de uma rede de apoio elevam drasticamente o risco de adoecimento psíquico. Os cuidadores familiares vivem sob níveis significativos de sobrecarga. Sintomas depressivos se intensificam pela desesperança e pela perda de controle sobre a própria trajetória. Já a ansiedade é o resultado de uma hipervigilância: o estado de alerta constante e o medo de que o familiar piore em seu quadro clínico ou venha a falecer a qualquer momento” afirma Ana Paula.
 

No dia a dia exaustivo, pode ser difícil para o cuidador perceber que passou do limite. Segundo a psicóloga, a principal forma de diferenciar o cansaço físico normal da sobrecarga emocional crônica é observar-se quanto ao repouso. O cansaço normal é passageiro, quando o sono está conciliado, quando há bem-estar após repouso em tempo adequado. Entretanto, a sobrecarga emocional, não se esvai após uma noite de sono. A pessoa cuidadora dorme, mas acorda exausta. Adicionalmente, verifica-se humor apático e a incapacidade de sentir prazer nas pequenas coisas (anedonia).
 

Sinais de alerta quando se instala um quadro de burnout nomeado de estresse do cuidador podem ser observados em várias dimensões. “Emocionalmente, podem ser percebidas irritabilidade excessiva, choro sem motivo aparente e um distanciamento afetivo onde o cuidado se torna mecânico, automático, quando previamente era afetuoso e empático. Quanto aos sinais físicos, podem estar presentes insônia severa, alterações de apetite, dores crônicas e psicossomáticas. Sobre alterações comportamentais, o cuidador costuma abandonar a si mesmo, negligencia o autocuidado em saúde como faltas em consultas médicas, esquece seus remédios e abandona tratamentos prévios. No limite do esgotamento, pode apresentar episódios de reatividade e/ou agressividade que não eram comportamentos prévios”, sinaliza Ana Paula.
 

Preservar a saúde mental é uma necessidade para que o cuidado se sustente. Algumas intervenções podem ser diferenciais no cuidado ao cuidador como psicoeducação realizada por profissionais que acompanham em internamento ou cuidados domiciliares, a inclusão de pausas na rotina de cuidado, a divisão justa de tarefas entre familiares cuidadores como rede de apoio e a participação em grupos de apoio, onde compartilhar vivências de sofrimento pode ser uma estratégia de enfrentamento importante. Contudo, há momentos em que a ajuda profissional (psicológica e psiquiátrica) é inadiável. A máxima “para cuidar do outro, é preciso, antes de tudo, cuidar de si” é um debate urgente.

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