BLOG DO JAIRO GOMES

Assobiar e chupar cana

Hoje, no dia em que completo 65 anos, uma música antiga resolveu aparecer na minha cabeça. Não sei por quê. Talvez essas coisas aconteçam quando a gente chega a uma idade em que o passado deixa de ser apenas passado e começa a conversar com o presente.

Era Benito Di Paula cantando que seria muito bom, seria muito legal se cantor ou compositor pudesse também ser ator ou jogador de futebol.

E depois vinha a frase que ficou na memória:

“Quero ver um cara sentar numa praça, assobiar e chupar cana.”

Aí está a graça.

Porque Benito não estava simplesmente falando de alguém que faz muitas coisas. Ele estava falando do impossível.

Eu nunca vi ninguém assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.

Ou assobia, ou chupa a cana.

Pode até tentar fazer as duas coisas, mas uma vai atrapalhar a outra.

E fiquei pensando que talvez essa velha canção tenha alguma coisa a dizer sobre o nosso tempo.

Hoje, parece que todo mundo precisa ser tudo.

O sujeito ganha muitos seguidores nas redes sociais e, de repente, está pronto para disputar um mandato político.

Faz vídeos que alcançam milhares de pessoas e passa a se considerar comentarista.

Fala bem diante de uma câmera e já se apresenta como jornalista.

Pega um microfone e está convencido de que virou radialista.

Publica meia dúzia de opiniões sobre política e passa a tratar qualquer profissional que estudou, pesquisou e trabalha há anos na área como alguém que simplesmente “não entende a realidade”.

Não é exatamente a falta de oportunidade que me incomoda.

A internet democratizou a palavra. Isso é bom.

Qualquer pessoa pode produzir conteúdo, expressar sua opinião, criar uma audiência e construir seu espaço.

O problema começa quando confundimos audiência com competência.

Ter seguidores não é diploma.

Ter alcance não é formação.

Ser popular não significa estar preparado.

E uma coisa não transforma automaticamente alguém na outra.

Tenho pensado nisso também por uma razão bastante pessoal.

Já vi muita gente escrever livros ensinando como criar filhos sem jamais ter criado um.

Não estou dizendo que uma pessoa precisa necessariamente ser pai ou mãe para estudar educação, psicologia ou relações familiares. Claro que não.

Mas existe uma diferença entre estudar uma experiência e vivê-la.

Eu criei muitos filhos.

Sei o que é responsabilidade, preocupação, noites maldormidas, decisões difíceis, medo de errar e aquela sensação permanente de que, quando se trata de um filho, não existe manual capaz de prever o que virá amanhã.

E, justamente por ter vivido isso, nunca me ocorreu escrever um livro ensinando os outros a criar seus filhos.

Talvez porque quanto mais a gente vive, mais percebe o tamanho daquilo que não sabe.

É curioso.

Alguns dos que menos hesitam em ensinar os outros são justamente aqueles que menos parecem conhecer os próprios limites.

E isso não acontece apenas com os livros de autoajuda.

Acontece na política.

Acontece no jornalismo.

Acontece no rádio.

Acontece nas redes sociais.

Acontece em praticamente tudo.

Vivemos a época do especialista instantâneo.

A pessoa acorda pela manhã com milhares de seguidores e vai dormir à noite acreditando que entende de administração pública, economia, direito eleitoral, jornalismo, segurança, saúde, educação e futebol.

Tudo no mesmo dia.

E, se alguém questiona, a resposta costuma ser:

“Mas eu tenho milhões de seguidores.”

Como se seguidores fossem certificados.

Não são.

Aliás, talvez uma das coisas mais perigosas do nosso tempo seja justamente essa inversão: antes, procurava-se alguém porque ele sabia; agora, muitas vezes, acredita-se que alguém sabe porque muita gente o segue.

É uma diferença enorme.

E não estou dizendo que diploma seja tudo.

Não é.

Conheço gente com muito estudo e pouco bom senso. E conheço gente com pouca formação acadêmica que aprendeu muito na escola da vida.

A experiência também ensina.

O que não podemos é transformar a exceção em regra.

Para ser jornalista, é preciso mais do que falar bem.

Para ser comentarista, é preciso mais do que ter opinião.

Para trabalhar no rádio, é preciso mais do que segurar um microfone.

Para administrar uma cidade, é preciso muito mais do que saber fazer um vídeo bonito para as redes sociais.

E para disputar um cargo político, é necessário, antes de tudo, entender que administrar a vida de milhares de pessoas é uma responsabilidade muito maior do que administrar uma página na internet.

Aos 65 anos, não tenho mais a obrigação de fingir que sei tudo.

Pelo contrário.

Uma das coisas que a idade me trouxe foi justamente a liberdade de dizer: não sei.

Não sei e vou procurar saber.

Não conheço e vou ouvir quem conhece.

Não vivi isso e, portanto, não vou fingir que vivi.

Isso não diminui ninguém.

Ao contrário.

Reconhecer limites talvez seja uma das formas mais honestas de inteligência.

Acho que é aí que a velha música de Benito Di Paula encontra o nosso tempo.

Ele queria ver o sujeito sentado numa praça, assobiando e chupando cana.

Porque não dá.

Uma coisa atrapalha a outra.

E talvez seja justamente isso que esteja faltando a muita gente: perceber que não precisamos ser tudo.

O cantor pode ser cantor.

O jornalista pode ser jornalista.

O radialista pode ser radialista.

O comentarista pode ser comentarista.

O político pode ser político.

O influencer pode ser influencer.

E qualquer um deles pode, se quiser, aprender outra coisa, mudar de caminho, começar de novo.

Nada impede.

Mas cada caminho tem suas exigências.

Cada profissão tem sua responsabilidade.

Cada função exige preparo.

Não é preciso impedir ninguém de entrar em campo.

Mas também não precisamos fingir que quem chegou ontem já conhece as regras do jogo.

A vida não funciona assim.

Aos 65, talvez eu esteja aprendendo justamente isso: não precisamos ocupar todos os lugares para provar nosso valor.

Há uma certa dignidade em saber onde podemos contribuir.

E outra, ainda maior, em reconhecer onde precisamos aprender.

Porque, no fim das contas, talvez o sujeito que sabe que não consegue assobiar enquanto chupa cana esteja mais próximo da sabedoria do que aquele que insiste em fazer as duas coisas apenas para convencer os outros de que consegue.

"Nem tudo pode ser perfeito.

Nem tudo pode ser bacana".

E nem tudo pode ser tudo.

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