Especialistas em educação, americano e brasileiro contestam eficácia do estudo em casa, veem deterioração do debate sobre políticas públicas e questionam os testes padronizados de aprendizagem
James Heckman, professor da Universidade de Chicago, vencedor do Nobel de Economia Foto: Divulgação
Antonio Gois
James Heckman, professor da Universidade de Chicago e um dos maiores especialistas em políticas de primeira infância, estava no Rio de Janeiro quando, em outubro de 2000, foi anunciado vencedor do Nobel de Economia. Quem o ajudou a atender às demandas da imprensa na época foi o economista Aloisio Araújo, do IMPA e da EPGE/FGV, atuando até como tradutor em entrevistas. Heckman visita o país com frequência e criou vínculos com vários pesquisadores brasileiros. Na semana passada esteve mais uma vez no Rio, participando da Conferência Internacional sobre Teoria Econômica Pública, na FGV. Ao seu lado, de novo, estava Araújo, também pesquisador da primeira infância.
Em sua apresentação, Heckman mostrou resultados de um programa de visitas domiciliares numa área rural da China. Seus estudos vêm demonstrando impactos positivos desse tipo de intervenção, cujo foco é o apoio às famílias em situação de vulnerabilidade, ensinando-as como interagir com seus filhos de forma a desenvolver desde cedo habilidades e competências fundamentais para o resto da vida. Estudos apresentados durante a conferência reforçam o argumento de que essas intervenções têm ótimo custo-benefício e forte potencial de equidade, por reduzir significativamente a distância entre crianças mais pobres e mais ricas ao longo da vida, especialmente em indicadores que vão além da sala de aula, como empregabilidade, renda, criminalidade ou gravidez precoce.
No evento, Araújo também apresentou um estudo, realizado em parceria com Bruno T. Ogava e André Portela Souza, mostrando impactos positivos na aprendizagem das políticas de expansão da creche e da pré-escola no Brasil. Confira a seguir os principais trechos de uma entrevista com a dupla de pesquisadores.
Economista brasileiro Aloisio Araújo
Foto: Cris Vicente/Divulgação
Há pelo menos três décadas vocês estudam programas de primeira infância. Como avaliam a resposta dos gestores de políticas públicas às evidências nessa área?
Heckman: Falando como americano, de forma geral o nível de discussão sobre evidências em políticas públicas deteriorou-se muito. Tornou-se mais político e muito anti-intelectual. O posicionamento do governo Trump em relação às mudanças climáticas é um exemplo de onde a qualidade da discussão foi parar. Há todo um espectro político nos Estados Unidos que age assim. Dito isso, no caso da primeira infância creio que houve um grande impulso na importância do cuidado nessa etapa da vida. Isso pegou. As pessoas estão cientes do problema, mas o que não está disseminado é o entendimento de quais políticas específicas são mais eficazes.
Araújo: No contexto brasileiro, sou otimista em relação às políticas de primeira infância. Todo o debate sobre a importância da primeira infância teve impacto na política pública. A criação do Fundeb (fundo que ampliou o financiamento da educação básica, incluindo creches e pré-escolas) foi um passo na direção certa. A obrigatoriedade de matrícula na pré-escola e a garantia do direito à creche também. Essas mudanças foram possíveis graças a uma grande combinação de forças em defesa das creches e da educação infantil. Na discussão sobre a regulamentação do novo Fundeb, o governo nos consultava com frequência, o relator do projeto de lei também... Então acho que foi algo muito positivo. Também conseguimos evitar algumas propostas que previam o atendimento com “mães crecheiras”, o que, na prática, resultaria na contratação de pessoas de baixíssima escolaridade para cuidar de crianças.
Heckman: Do ponto de vista das crianças, isso seria mesmo muito ruim, porque há evidências de que, se você retira uma criança do ambiente doméstico e a substitui por um cuidado muito inferior fora de casa, você prejudica tanto a aprendizagem quanto o desenvolvimento socioemocional.
Seus estudos, professor Heckman, vêm demonstrando a importância do cuidado em casa pelos pais. Mas, já que o senhor mencionou a questão da politização dos debates, o Brasil discute a regulamentação do “homeschooling”, justamente com o argumento de que as crianças estarão mais bem atendidas em casa do que na escola. Suas pesquisas corroboram essa tese?
Heckman: Minhas pesquisas não tratam diretamente do homeschooling. O que o conjunto de trabalhos que venho fazendo demonstra, e muitos outros autores também mostram, é a importância das relações entre pais e filhos em casa. Mas reduzir isso ao homeschooling seria ir longe demais. O caminho mais promissor é o da interação dos pais e das mães com a escola. Professores, obviamente, desempenham um papel muito importante, e os pais podem apoiar muito esse trabalho em casa. Vejo muita gente em faculdades de educação e de economia fazendo uma separação do tipo “aqui está a escola e aqui está a casa”, como se fosse possível separar completamente. Houve um relatório muito importante nos EUA, do sociólogo James Coleman (publicado em 1966), que mostrou que o contexto familiar era a principal variável para explicar o desempenho escolar. Isso gerou em muitos setores um sentimento de que é injusto que algumas crianças tenham pais muito mais favorecidos do que outras. De fato, em algum nível é mesmo injusto, mas, por outro lado, o investimento dos pais em seus filhos é algo muito poderoso. E o caminho, obviamente, não é impedir que os pais invistam nos filhos, mas sim procurar dar às crianças mais pobres uma experiência comparável. É aí que a pré-escola desempenha um papel muito importante.
Araújo: Esse é mais um argumento a mostrar que a expansão da obrigatoriedade da pré-escola no Brasil (aprovada por emenda constitucional em 2009) foi algo muito sábio. Até os 3 anos de idade, o atendimento em creche é um direito, mas fica a critério dos pais. A partir dos 4 tem de ir para a escola. E hoje quase todas as crianças de 4 e 5 anos estão matriculadas (o dado mais recente do IBGE, referente a 2025, indica 95% de escolarização nessa faixa etária).
Professor Heckman, o senhor faz muitas críticas a testes padronizados de aprendizagem, como o PISA. Mas eles continuam sendo muito utilizados...
Heckman: Sim, é uma indústria enorme. As pessoas que inventaram, no século passado, esse tipo de teste já alertavam que eles eram limitados, que mensuravam apenas algumas dimensões da aprendizagem. Podem dar uma medida do quanto alguém conhece matemática e ciências, mas não avaliam bem o quanto a pessoa vai conseguir atuar positivamente na sociedade em dimensões essenciais. Não estou dizendo que deveríamos deixar de usar completamente esses exames. Mas estamos avançando muito rapidamente em avaliações que permitem um olhar mais amplo e que podem oferecer um diagnóstico personalizado de cada aluno. Claro que há muitas questões éticas a serem consideradas, mas estamos entrando numa era em que podemos fazer isso melhor.
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