REFIS PRORROGADO
Por João Galamba*
O Homem-Aranha consegue salvar uma cidade inteira, mas quase nunca consegue salvar a própria vida do esgotamento.
O lançamento de “Homem-Aranha: Um Novo Dia” oferece uma oportunidade para observar Peter Parker por um ângulo menos heróico e muito mais próximo da realidade de milhões de trabalhadores.
“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
A frase que imortalizou o personagem costuma ser vista como uma lição de coragem. Mas a rotina por trás da máscara também revela o peso de alguém que acredita não ter o direito de parar.
Peter vive correndo. Dorme pouco, enfrenta dificuldades para pagar as contas, acumula tarefas e quase não encontra tempo para a família, os amigos ou para si mesmo. Quando algo dá errado, ele se culpa. Quando pensa em descansar, sente que está abandonando alguém.
Troque a teia pelo celular, a máscara pelo uniforme da empresa e os vilões pelas cobranças diárias. O resultado é uma imagem bastante conhecida do trabalhador moderno.
Em muitos ambientes de trabalho, o cansaço passou a ser visto como sinal de dedicação. Estender o expediente com frequência, responder mensagens durante a folga e permanecer disponível o tempo inteiro são comportamentos tratados como provas de comprometimento.
É o famoso “vestir a camisa”.
O problema é que, muitas vezes, essa camisa pesa. Pesa ainda mais quando o trabalhador acredita que não pode recusar uma tarefa, demonstrar cansaço ou simplesmente admitir que chegou ao limite.
É assim que o esgotamento começa.
O esgotamento profissional, conhecido como burnout, não é apenas o cansaço depois de uma semana difícil. É um desgaste profundo, provocado por uma rotina que exige demais durante tempo demais.
Aos poucos, a pessoa perde energia, motivação e interesse pelas atividades que antes lhe davam prazer. O trabalho passa a ocupar os pensamentos, as relações pessoais e até os momentos que deveriam ser reservados ao descanso.
O expediente termina, mas as cobranças continuam no celular, nas metas e na cabeça. O medo de perder o emprego acompanha o jantar, o fim de semana e, muitas vezes, o próprio sono.
A parte mais cruel é que nem sempre alguém precisa obrigar o trabalhador a se sacrificar. Ele próprio pode acabar convencido de que descansar é egoísmo e de que estabelecer limites significa falta de comprometimento.
Se a equipe está reduzida, ele precisa compensar. Se a meta é impossível, precisa aumentar o esforço. Se está exausto, precisa ser mais resistente. A equipe continua pequena, a meta continua alta e o prazo continua curto. Quando o resultado não chega, a culpa recai sobre quem já está no limite.
A armadilha está em transformar o sacrifício em virtude.
Quanto mais o trabalhador suporta, mais tarefas recebe. Quanto mais disponível se mostra, mais se espera que continue disponível. Sua competência deixa de ser reconhecida e passa a ser usada contra ele.
Nenhum emprego deveria exigir que uma pessoa abrisse mão da própria saúde para demonstrar comprometimento. Descansar não é preguiça, fraqueza ou falta de ambição. É uma necessidade humana.
Ao contrário dos heróis dos quadrinhos, o trabalhador não possui superpoderes. Não se recupera completamente entre uma batalha e outra e não pode enfrentar cobranças diferentes todos os dias sem sofrer consequências.
Uma sociedade que depende do sacrifício permanente de seus trabalhadores não é mais eficiente. Apenas aprendeu a tratar o esgotamento como algo normal.
Quando alguém precisa agir como um super-herói apenas para pagar as contas, cuidar da família e manter o emprego, o problema não está na falta de esforço dessa pessoa. Está em uma estrutura que exige de seres humanos uma força sobre-humana.
Descansar também é um direito de quem sustenta o mundo todos os dias.
*João Galambra é advogado travalhista
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