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Para além dos dois primeiros anos de idade: ao ajudar a programar o metabolismo do bebê, a amamentação reduz o risco de doenças crônicas na vida adulta

No Agosto Dourado, especialista explica que o leite materno ultrapassa a nutrição e influencia o desenvolvimento metabólico, diminuindo as chances de diabetes, hipertensão e colesterol alto no futuro


“Ouro líquido”, “alimento padrão-ouro para o bebê”. Esses são alguns dos títulos merecidamente dados ao leite materno. Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o Ministério da Saúde (MS) e a Organização Mundial da Saúde (OMS), o aleitamento materno possui todos os nutrientes necessários para o crescimento e o desenvolvimento do bebê nos primeiros meses de vida. Porém, engana-se quem pensa que a amamentação se resume apenas a nutrir a criança ou que seus benefícios ficam limitados a essa fase.
 

Uma das maiores vantagens do leite materno está justamente no seu impacto a longo prazo. A campanha Agosto Dourado, bem como a Semana Mundial do Aleitamento Materno 2026 (que ocorre entre o 1º a 7 de agosto) chama atenção para esse aspecto: a amamentação é o melhor alimento para o bebê porque, além de apresentar uma composição nutricional completa, oferece benefícios que atravessam a infância, influenciando o metabolismo e reduzindo o risco de doenças crônicas na vida adulta.
 

Programação metabólica: o que é e como se relaciona com a amamentação?

Segundo o conceito de Programação Metabólica, ou DOHaD (Developmental Origins of Health and Disease), estímulos nutricionais e ambientais ocorridos desde a gestação até os primeiros anos de vida exercem efeitos duradouros sobre a expressão gênica, o metabolismo e o risco de desenvolvimento de doenças crônicas na idade adulta. Ou seja, esses estímulos “ensinam” o organismo a funcionar ao longo dos anos.
 

Onde o leite materno entra nesse contexto? Ele desempenha um papel fundamental ao oferecer nutrientes, hormônios, anticorpos e fatores de crescimento na medida adequada para cada fase do desenvolvimento infantil.
 

Thiago Arruda, endocrinologista pediátrico do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, afirma que as escolhas alimentares feitas logo no início da vida podem gerar reflexos que acompanham a pessoa por décadas.
 

“A ciência já mostra que a nossa alimentação nos primeiros meses de vida programa o nosso metabolismo para o resto da vida. A alimentação saudável e, nesse caso, o leite materno, que é o alimento mais saudável para a criança, programa todo o metabolismo para que ela tenha menos chance de desenvolver doenças como diabetes, pressão alta e alterações do colesterol”, explica.
 

Os primeiros mil dias fazem diferença

A programação metabólica começa ainda antes do nascimento. Segundo Thiago Arruda, os primeiros mil dias de vida, período que vai da gestação até os dois anos de idade, são fundamentais tanto para a formação do metabolismo quanto para o desenvolvimento do organismo como um todo.
 

“Nosso metabolismo começa a ser pré-programado desde a fecundação. Fatores que acontecem com a mãe durante a gravidez já influenciam como será o metabolismo da criança nos próximos anos”, destaca.
 

Entre os fatores que precisam ser observados pela gestante estão a prática regular de atividades físicas, alimentação equilibrada, controle do peso, níveis adequados de glicose para prevenir a diabetes gestacional, qualidade do sono, ausência do consumo de álcool e tabagismo, além do controle dos níveis de estresse.
 

“Tudo o que ocorre nessa faixa etária pré-programa essa criança para o metabolismo durante toda a vida. A alimentação correta, com proteínas, gorduras e carboidratos nas quantidades adequadas, faz com que o organismo desenvolva um melhor equilíbrio metabólico”, reforça o especialista.
 

“Nem mesmo água”: aleitamento exclusivo até os seis meses

A recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde (MS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) é que o bebê receba exclusivamente leite materno até completar seis meses de vida.

“O aleitamento materno até os seis meses de idade é suficiente para o desenvolvimento da criança. Isso significa que ela não precisa de nenhum outro alimento, nem mesmo água, apenas do leite materno”, recomenda Thiago Arruda.
 

Quando a amamentação exclusiva não pode ser mantida por indicação médica ou outras circunstâncias, existem alternativas seguras. “Nos casos em que é impossível manter o aleitamento materno exclusivo, podem ser utilizadas fórmulas infantis específicas para cada faixa etária. Elas são produzidas a partir do leite de vaca, mas procuram se assemelhar ao máximo ao leite materno”, explica.
 

Alimentação complementar deve começar após os seis meses

As entidades também reforçam que, a partir do sexto mês, o leite materno continua sendo importante, mas novos alimentos já podem ser introduzidos. “Depois dos seis meses de idade, entra a alimentação complementar. Além do leite materno, passam a ser oferecidos alimentos sólidos e pastosos, sempre os mais saudáveis possíveis. Essa combinação deve ser mantida até, pelo menos, os dois anos de idade”, orienta Thiago Arruda.
 

Segundo o especialista, esse cuidado contribui para a formação de adultos mais saudáveis. “Crianças que recebem uma alimentação saudável nos primeiros anos de vida tendem a apresentar um metabolismo mais equilibrado e uma melhor homeostase, que é a capacidade que o organismo tem de manter seu equilíbrio interno, mesmo quando há mudanças no ambiente externo ou dentro do próprio corpo. Isso faz com que crianças saudáveis tenham maiores chances de se tornarem adultos saudáveis”, afirma.
 

Outro título atribuído ao leite materno é o de “primeira vacina do bebê”. A expressão se refere principalmente ao colostro, o primeiro leite produzido após o parto, rico em anticorpos e fatores imunológicos que ajudam na proteção contra infecções.
 

Além de reduzir o risco de alergias, doenças crônicas e favorecer o desenvolvimento neurológico, a amamentação também traz benefícios para a saúde materna, como reduzir sangramentos após o parto ao auxiliar o útero a retorno para o tamanho normal, diminuir o risco de câncer de mama e ovário, reduzir o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, especialmente após períodos prolongados de amamentação, além de fortalecer o vínculo com o bebê e favorecer o bem-estar emocional.


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Créditos: Magnific

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