REFIS PRORROGADO
Existe uma contradição que merece ser enfrentada: desejamos um mundo sem fome, sem miséria, sem guerras e sem desigualdades, mas frequentemente tratamos a possibilidade de construí-lo como um sonho distante, quase sempre reservado a um futuro que nunca chega.
Para alguns, a felicidade plena está no paraíso prometido pela fé. Para outros, o sentido da existência está na construção de uma sociedade em que todos tenham acesso à alimentação, à saúde, à educação, à moradia e a uma vida digna. Essas perspectivas não precisam ser inimigas. O problema começa quando a esperança no amanhã se transforma em justificativa para a indiferença diante do sofrimento de hoje.
Afinal, que sentido tem desejar um mundo sem fome depois da morte enquanto aceitamos que crianças passem fome em vida? Que valor tem a promessa de uma humanidade reconciliada se não somos capazes de combater as injustiças que dividem a humanidade presente?
Não se trata de negar a fé, desrespeitar a religião ou ridicularizar a esperança espiritual. Trata-se de fazer uma pergunta moral: se temos condições de aliviar o sofrimento humano, temos também a responsabilidade de agir?
A história demonstra que direitos hoje considerados fundamentais não foram simplesmente concedidos pela passagem do tempo. Foram conquistados por pessoas que se organizaram, protestaram, trabalharam e enfrentaram interesses poderosos. A redução da pobreza, a ampliação do acesso à educação, os direitos trabalhistas e a proteção social são resultados de decisões políticas, disputas sociais e escolhas coletivas.
É verdade que não podemos resolver todos os problemas de uma vez. Recursos são limitados, soluções exigem planejamento e políticas públicas podem fracassar. Mas reconhecer as dificuldades não significa aceitar a imobilidade. Não conseguir eliminar toda a injustiça não é motivo para deixar de combater aquela que podemos reduzir.
Também precisamos discutir a distribuição da riqueza, as prioridades dos governos e a responsabilidade de quem concentra poder econômico e político. Uma sociedade não pode considerar inevitável a privação de milhões de pessoas sem questionar como produz, distribui e utiliza aquilo que possui.
A própria tradição cristã oferece caminhos para essa reflexão. A Teologia da Libertação, por exemplo, aproximou a espiritualidade da luta por justiça social, defendendo que a fé não precisa se limitar à oração: pode também inspirar a ação concreta em favor dos mais pobres e vulneráveis.
No fundo, a questão ultrapassa a religião e a ideologia. Diz respeito ao tipo de humanidade que desejamos ser. Podemos discordar sobre o destino depois da morte, mas não precisamos discordar sobre o dever de proteger a vida antes dela.
O paraíso, para quem acredita nele, pode ser uma promessa de eternidade. Para quem não acredita, a vida terrena é a existência concreta que temos. Em ambos os casos, a fome de uma criança, o sofrimento de uma família e a falta de oportunidades de um trabalhador são realidades que exigem respostas no presente.
O futuro pode alimentar a esperança. Mas é no presente que a justiça precisa começar.
Não sabemos se um dia construiremos uma sociedade perfeita. Sabemos, porém, que podemos trabalhar por uma sociedade menos injusta. E talvez a grande medida de nossa humanidade não esteja na perfeição do mundo que prometemos, mas na disposição de transformar aquele que temos.
Antes de perguntar quem merece o paraíso, talvez devêssemos perguntar por que ainda permitimos que tanta gente viva sem o mínimo necessário para uma existência digna.
Afinal, se podemos fazer do mundo um lugar melhor, por que esperar?
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