BLOG DO JAIRO GOMES

O Brasil sob ameaça: não há espaço para ingenuidade diante de quem quer nos dominar

O debate de ontem na Globo reforçou minha convicção: Flávio Bolsonaro não demonstrou estar à altura da responsabilidade que pretende assumir. Vi um candidato sem a consistência que o momento exige, com dificuldades para sustentar suas posições e uma dependência política de um sobrenome que parece valer mais do que as próprias ideias. Minha avaliação é dura, mas o que está em jogo é grande demais para que eu me esconda atrás de palavras bonitas.

Não estamos diante de uma disputa eleitoral qualquer. Estamos falando do destino de um país, de sua soberania, de suas riquezas e da capacidade de seu povo de decidir os próprios rumos sem se curvar aos interesses de outras nações.

O cenário internacional exige vigilância. Os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, têm demonstrado disposição para utilizar seu peso econômico, diplomático e político na defesa de seus interesses. Nenhuma nação poderosa atua no cenário mundial por caridade. Governos defendem interesses, constroem alianças e procuram ampliar sua influência. O Brasil precisa compreender essa realidade sem ingenuidade.

É nesse contexto que as relações entre setores da direita brasileira e forças políticas norte-americanas merecem atenção. Quando lideranças brasileiras buscam apoio externo para fortalecer seus projetos internos, a pergunta é inevitável: onde termina a cooperação internacional e onde começa a disposição de subordinar os interesses nacionais a uma agenda estrangeira?

Não se trata de inventar conspirações nem de atribuir a governos intenções sem provas. Trata-se de observar os fatos, investigar as relações políticas e financeiras e cobrar transparência de quem pretende exercer o poder. A soberania não pode ser moeda de troca eleitoral.

O problema se torna ainda mais grave quando interesses poderosos passam a tratar investigações como perseguição e mecanismos de controle como inimigos a serem destruídos. Democracias não podem funcionar sob a lógica de que determinadas pessoas estão acima da lei. Quem tem poder também precisa prestar contas. Quem é investigado tem direito à defesa, mas não pode exigir imunidade política como condição para aceitar a Justiça.

É precisamente por isso que instituições independentes, imprensa livre e investigação rigorosa são indispensáveis. Quando surgem indícios de irregularidades, é necessário apurar sem privilégios, sem intimidação e sem blindagem para aliados. E, quando as provas não sustentam uma acusação, a mesma seriedade exige reconhecer isso.

O Brasil não pode entregar seu futuro àqueles que confundem poder com impunidade, influência com autoridade moral e alianças internacionais com autorização para interferir nos destinos de outro povo.

A discussão sobre Flávio Bolsonaro precisa ir além de sua performance em um debate. É preciso examinar suas propostas, suas alianças, suas posições sobre as instituições e o país que pretende construir. O sobrenome não pode funcionar como salvo-conduto, muito menos como substituto de um projeto nacional consistente.

Não tenho obrigação de disfarçar minha opinião para agradar a quem exige neutralidade até diante de riscos que considero graves. Editorial é posicionamento. É análise, convicção e responsabilidade pública. O leitor tem o direito de saber de que lado estamos e quais valores defendemos.

E há uma linha que não podemos permitir que seja ultrapassada: a linha da soberania nacional.

O Brasil não é quintal de Washington, não é propriedade de uma família política e não pode ser tratado como território disponível para projetos de poder alheios à vontade de seu povo.

Precisamos estar vigilantes, mobilizados e dispostos a defender nossa democracia por todos os meios legítimos: pelo voto, pela organização popular, pela imprensa, pela Justiça, pela fiscalização do poder e pela resistência democrática.

Não podemos aceitar a dominação. Não podemos naturalizar a interferência. E não podemos confundir democracia com passividade diante de quem pretende enfraquecê-la.

Quando interesses internos e externos convergem para disputar os rumos do país, a resposta precisa ser firme: o Brasil pertence aos brasileiros. Seu destino deve ser decidido pelo povo brasileiro, com liberdade, soberania e respeito à Constituição.

A história não perdoa a ingenuidade dos que enxergam ameaças e preferem fingir que nada está acontecendo.

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