REFIS PRORROGADO
Existe uma espécie cada vez mais abundante nas redes sociais: o especialista em absolutamente tudo.
Acorda sabendo economia. No café da manhã, já resolveu o problema da Previdência. Antes do almoço, explicou como funciona o STF. À tarde, fez uma análise geopolítica sobre China, Estados Unidos e Ucrânia. À noite, depois de assistir a três vídeos no WhatsApp, tornou-se especialista em ciência, medicina e política.
Tudo isso sem ter lido um livro sobre o assunto.
E o mais impressionante não é a falta de conhecimento.
É a confiança absoluta na própria ignorância.
Para essa turma, estudar é coisa de quem "não entende a realidade". Ler um economista é desnecessário. Conhecer história é perda de tempo. Pesquisar fontes é frescura. Basta ter uma opinião — e, de preferência, uma opinião forte.
É aí que entra uma sugestão que pode parecer revolucionária para alguns: leiam.
Leiam David Harvey, por exemplo.
Não porque Harvey seja dono da verdade. Não é. E ninguém precisa concordar com ele.
Mas porque ler um autor sério sobre neoliberalismo ajuda a perceber que palavras repetidas diariamente nas redes — "liberdade", "mercado", "Estado mínimo", "eficiência", "privatização" — possuem história, significado e consequências concretas.
Harvey apresenta o neoliberalismo por uma perspectiva muito diferente daquela vendida em frases prontas de internet. Para ele, não se trata simplesmente de retirar o Estado da economia. O Estado continua presente — e pode ser extremamente poderoso — quando se trata de proteger determinados interesses econômicos e estruturas de propriedade.
É uma discussão que merece mais do que um meme.
Merece leitura.
Porque dizer que "o Estado deve ser mínimo" é fácil.
A pergunta difícil é:
Mínimo para quem?
Mínimo quando o trabalhador reivindica direitos?
Mínimo quando a população precisa de saúde, educação e transporte?
Mínimo quando se fala em proteção social?
Mas pode deixar de ser tão mínimo quando bancos precisam de socorro, empresas recebem incentivos, grandes obras exigem dinheiro público ou determinados setores econômicos precisam de proteção?
É justamente aí que começa uma discussão adulta sobre economia e política.
Eu não acredito em jornalismo que se esconde atrás de uma falsa neutralidade para não desagradar ninguém.
Tenho lado.
Meu lado é o da democracia, da ciência, da liberdade de expressão, dos direitos sociais, do SUS, da vacinação, da defesa dos trabalhadores, da redução das desigualdades e da proteção dos mais vulneráveis.
Defendo que quem tem mais condições econômicas deve contribuir proporcionalmente mais para o financiamento do Estado. Defendo direitos trabalhistas. Defendo políticas públicas que garantam dignidade a quem não teve as mesmas oportunidades. Defendo o conhecimento científico e rejeito a transformação da mentira em instrumento político.
E, sim, isso influencia a minha maneira de fazer jornalismo e de escrever opinião.
Não tenho compromisso com a falsa equivalência entre fato e mentira.
Uma opinião pode ser legítima.
Uma informação falsa continua sendo falsa, mesmo quando muita gente acredita nela.
Isso não significa que eu considere minhas posições infalíveis. Pelo contrário. Estudar é justamente aceitar a possibilidade de mudar de ideia diante de fatos e argumentos melhores.
Mas há uma diferença enorme entre ter posição e abandonar os fatos.
Eu posso declarar minha posição política.
O que não posso fazer é transformar preferência política em realidade.
E é exatamente por isso que considero a leitura tão importante.
Não é preciso ser de esquerda para ler Harvey.
Assim como não é preciso ser de direita para ler autores liberais.
Quem realmente tem segurança sobre suas próprias ideias não deveria ter medo de conhecer ideias diferentes.
O problema não é discordar de um livro que você leu.
O problema é atacar um livro que você nunca abriu.
Talvez essa seja uma das maiores doenças intelectuais do nosso tempo: pessoas que confundem convicção com conhecimento e opinião com informação.
Ter opinião é um direito.
Ter opinião sobre tudo também.
Mas ninguém é obrigado a levar a sério uma opinião que não passou nem pela porta de uma biblioteca.
Então fica a sugestão para os nossos doutores em WhatsApp, especialistas em áudio de três minutos e professores titulares da Universidade do "eu vi num vídeo":
leiam.
Leiam Harvey. Leiam Celso Furtado. Leiam Milton Friedman. Leiam Keynes. Leiam Marx. Leiam autores de que vocês gostam e, principalmente, autores de que vocês discordam.
Depois a gente conversa.
E, se discordarem, melhor ainda.
Porque pensar é muito mais interessante do que repetir.
E, no meu caso, continuarei fazendo aquilo que acredito que um jornalista deve fazer:
ler, pesquisar, conferir, questionar e tomar posição — sem abrir mão dos fatos.
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