MBL RECONHECE ERROS EM MANIFESTO: 'HÁ COMO POLARIZAR SEM SER ESTÚPIDO'

Movimento ganhou notoriedade com postura agressiva durante o impeachment de Dilma Rousseff e agora critica em documento debate raso na política caracterizado por esquerda que ‘lacra’ e direita que ‘mita’

Dimitrius Dantas
EXAME

Primeiro Forum Regional do MBL 
Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

O MBL chegou à maioridade. Ao menos é isso o que acreditam suas principais lideranças. O movimento, alçado à notoriedade durante os protestos pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, graças à postura combativa de suas lideranças e a uma fábrica de memes contra o PT e outros adversários que viralizavam nas redes sociais, agora defende que, para polarizar, "não é preciso ser estúpido".

Em um manifesto publicado nesta quarta-feira em seu site, o movimento faz um "mea culpa" sobre os excessos cometidos durante os últimos anos e, entre outras coisas, anuncia que não terá um candidato oficial nas eleições presidenciais de 2022 - no ano passado, durante o segundo turno, algumas das lideranças do grupo decidiram apoiar o presidente Jair Bolsonaro (PSL).

Segundo o documento, chegou a hora de polarizar sem cair na burrice. “É preciso divergir em um nível mais fundamental. No nível do diálogo possível, há como polarizar sem ser estúpido”, diz o texto.

Autor do manifesto, o professor de filosofia e coordenador do MBL Bahia, Ricardo Almeida, diz que a mudança de rumo demonstra o amadurecimento do grupo, formado majoritariamente por jovens que, em um ambiente de efervescência política, pode ter contribuído para um debate raso na política entre o que chama de uma esquerda que "lacra" e uma direita que "mita".

POLARIZAÇÃO SUPERFICIAL

Depois de uma hegemonia da esquerda que via fantasmas e hoje vive entre "pavores imaginários" e "desafios reais", segundo o MBL, surgiu uma direita refém da "sociedade do espetáculo". Entre as novas diretrizes do grupo está a defesa de um "liberalismo dos pobres, dos pequenos, o liberalismo popular".

“Percebemos que a polarização política, que é importante e que não estamos negando, acabou caindo em um nível muito baixo. Essa polarização tem sido superficial, tanto da direita quanto da esquerda”, disse.

O grupo não vai deixar de apostar nos memes, mas espera incluir agora “memes com ideias”. Um dos exemplos recentes é uma publicação em que critica a nomeação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada do Brasil em Washington, nos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que tenta explicar o conceito de patrimonialismo.

A ideia é que as imagens não sirvam apenas para mobilizar as bases, mas também para aprofundar as discussões. O objeto da crítica também indica que o grupo planeja se distanciar do governo Bolsonaro . Por outro lado, o engajamento e a audiência obtidos com os “memes com ideias” não são equivalentes aos dos memes antigos, mais chamativos e mais superficiais. “Menos golaço, mais teoria”, diz o texto.

Durante o que chamam de “período combativo”, o MBL conseguiu eleger, além do deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP), outros nomes chegaram à política tradicional, como Arthur “Mamãe Falei”, deputado estadual em São Paulo, e Fernando Holiday, vereador na capital paulista. Os três foram alçados aos postos de celebridades da nova direita principalmente pela postura agressiva nas redes sociais e nas ruas, durante os protestos contra Dilma.


Nas redes sociais, coordenadores do movimento, como Renan Santos, e o próprio Kim Kataguiri têm sido criticados por uma postura de maior diálogo com setores da esquerda, sobretudo quando comparados com os deputados do PSL. Em uma das imagens compartilhadas, o parlamentar aparece tomando o café com o deputado Marcelo Freixo, do PSOL do Rio de Janeiro.

DIÁLOGO MAIS PROFUNDO

“O MBL está sendo pioneiro. Estamos sozinhos defendendo essa mudança para um diálogo mais profundo. O debate está viciado, o debate está superficial”, explica Ricardo Almeida.

A avaliação era de que o momento anterior exigia uma postura mais combativa que, eventualmente, levou o grupo a lançar mão de estratégias que caíram na superficialidade. Esse momento, no entanto, estaria superado.

“O objetivo de falar dos grandes temas nacionais, oportuno e necessário, fez o movimento apoiar projetos presidenciais numa postura entre agente político e torcedor. Quinta regra: não faremos mais isso. A partir de 2022, estaremos fora da briga presidencial; não teremos candidato oficial”, afirma o documento.

O grupo calcula que, em breve, não apenas os políticos em Brasília, mas boa parte da população também irá cobrar um debate mais rico. A tese do movimento é de que os problemas estruturais do Brasil em áreas como saúde, segurança, educação e economia acabarão em um impasse em razão do debate superficial proposto tanto por parte da direita como por parte da esquerda.

“Não é uma expectativa ingênua de que isso aconteça: essa refração diante de uma situação caótica é uma reação natural. Não acho que a população esteja presa à superficialidade”, diz.

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