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Reféns da moda, por Mariana Inbar no site Petiscos

Quem tem o mínimo de contato com a indústria da moda, sabe que as revistas vão de mal a pior. São títulos fechando, equipes diminuindo, números caindo… É fácil culpar a internet pelo fim das publicações impressas, mas alto lá: muitos desses títulos são diretamente responsáveis pelo atual estado do cenário editorial. “Editores dependem demais de pessoas que pegam roupa emprestada, alugam casas e fazem leasing de carros para vender revistas. Não é de se espantar que os leitores estão entediados e a garotada está olhando em outro lugar. Edward Enninful na Vogue, Katie Grand na W e a nova IV, essas são coisas nas quais posso enfiar meus dentes, mas se o melhor que você tem a me oferecer é outra capa com o Brad Pitt ou o David Beckham, obrigado, mas vou gastar meu dinheiro em outro lugar”, escreveu o diretor de casting James Scully, lindamente, ao comentar o fim da L’Uomo Vogue.

Sim, fala-se muito sobre o fenômeno das celebridades em capas de revistas de moda destruindo o que antes era um mundo de referências tão incrível, mas o buraco é muito mais embaixo. Assim como a gente viu no tapete vermelho, aqui é muito claro o tamanho do estrago do jabá. Lucinda Chambers, em uma carta aberta pós sua saída da Vogue britânica, denunciou que tudo na revista é ditado por anunciantes, comprometendo assim a qualidade do conteúdo da publicação.
Revistas precisam de anunciantes, ou não sobrevivem, isso nunca foi mistério. O problema é que nos últimos tempos, os anunciantes passaram a restringir qualquer espaço criativo dos profissionais que trabalham nessas revistas. O Business of Fashion publicou uma matéria enorme ontem sobre o assunto, comentando sobre o fenômeno de looks completinhos em revistas e como isso está destruindo esses títulos.
Até outro dia, a profissão de stylist consistia em pegar tudo o que foi visto em desfiles, tudo o que foi apresentado em showrooms de novas marcas e garimpado em brechós ou lojas de departamento, e misturar, dando uma nova cara a toda aquela informação. Era justamente esse o aspecto mais bacana de se comprar uma revista: você ia pegando ideias de como misturar, de como adaptar, de como transformar tudo o que rola na moda com o seu olhar. Atualmente, porém, as marcas anunciantes proíbem qualquer misturinha: looks devem ser fotografados completinhos, como foram vistos nas passarelas ou campanhas. E aí fica a dúvida: estariam stylists então trabalhando para as revistas ou fazendo campanha de grifes famosas?
Um stylist, sob condição de anonimato, disse que especialmente quando uma casa contrata um novo diretor-criativo para reformular sua imagem, é certo que vai proibir que suas peças se misturem com a de outras marcas. Na matéria, são citados Saint Laurent, Céline, Dior, Balenciaga e Louis Vuitton como marcas que impõe essas restrições às revistas (embora a Saint Laurent já tenha negado), mas, segundo o site, é a Calvin Klein a mais severa: desde que Raf Simons assumiu sua direção-criativa, nem acessórios da casa podem ser usados com peças de outras marcas. Tudo isso para marcar bem a visão do belga. Essa postura, aliás, funciona também em termos de logística: um look não precisa ser desmembrado – vai de revista para revista montadinho dentro de sua caixa. Resultado? Todas as revistas ficam iguais.
Na matéria do BoF, uma diretora de moda de uma publicação independente analisa que essa prática mata a criatividade e a inspiração dos profissionais. Enquanto isso, uma blogueira diz que é justamente por isso que os jovens preferem pescar referências de moda no Instagram: lá os looks não são montadinhos todos com uma marca. Tudo é misturado: Chanel com H&M, Dior com Carel e Gap, e daí por diante. Lembra da primeira capa da Anna Wintour para a Vogue, misturando jeans surrado com blusa de alta-costura Christian Lacroix? Era exatamente esse o espírito. Graças a tanto jabá, porém, esse espírito se perdeu.
Na mesma matéria, um fotógrafo comentou mais repercussões negativas dessa linha “look completinho”: a falta de orçamento. Para Daisy Walker, nem todas as revistas podem bancar looks inteiros da Gucci para um editorial. “Você basicamente está fotografando de graça para se promover, e os anunciantes estão mandando nas revistas, que estão mandando no criativo”. Para ela, o resultado são imagens que nada têm a ver com a ideia original e profissionais com um portfolio que nem de longe representa sua visão ou talento.
Mas, como foi citado acima, é mais fácil negar, como a Saint Laurent fez. É mais fácil fingir que nada disso está acontecendo, enquanto as revistas vão afundando, vendidas para grandes conglomerados enquanto matam a criatividade.
Era por isso que a gente comprava tanta revista: porque era de lá que a gente tirava ideias, entre sonhos totalmente irreais, que conseguia copiar em casa com o que se tinha no armário. Como bem disse um stylist para o BoF, a coleção da Balenciaga já é linda na passarela. O grande desafio é levá-la para outro universo, e reinterpretá-la. Stylists, por sua vez, viram robôs, e a gente vai perdendo o interesse. Uma pena.
Foto: Fashionspot, Instagram Vogue.
R.I.P. criatividade e visão

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