Direita já tem discurso para defender Temer

Por Joaquim de Carvalho, no blog Diário do Centro do Mundo:

Seria cômico não fosse trágico ver os porta-vozes da direita brasileira num malabarismo verbal tentar explicar a crise política e, de alguma forma, justificar a permanência de Michel Temer e seus homens no comando do País.

A foto dos meninos do MBL com Gilmar Mendes é a imagem da contradição.

Mas seu significado não é diferente das palavras que Joice Hasselmann diz num vídeo postado depois do resultado do julgamento do TSE.

Ele diz coisas como: “enfim, temos presidente” e tenta explicar que o resultado do TSE impede o golpe da volta do “Lulaladrão” – um golpe estranho, já que só haveria um jeito do ex-presidente voltar ao poder: pelas urnas.

Seria o primeiro golpe da história urdido e executado pela maioria do povo.

No fundo, o que Joice pensa, mas ainda não fala, é: não deixa o povo votar porque, se votar, ele volta.

Este é o ponto.

Joice não tem a experiência de Augusto Nunes, mas o que este diz em sua coluna na Revista Veja é também confuso: ele critica Gilmar Mendes e defende o povo na rua, mas é um povo diferente. Transcrevo um trecho:

O que falta é mais gente decidida a avisar nas ruas, aos berros, que o Brasil decente não se deixará intimidar pelos poderosos patifes que teimam em obstruir os caminhos da Lava Jato. Refiro-me à verdadeira Lava Jato, representada por Sérgio Moro, não à caricatura parida em Brasília por Rodrigo Janot.

No fundo, Joice e Augusto defendem Sérgio Moro porque Sérgio Moro persegue Lula e o PT, e poupou tanto Michel Temer quanto Aécio Neves, cujas verdadeiras faces foram reveladas nas investigações em Brasília.

Aécio, que três anos atrás era apresentado por porta-vozes como Joice e Augusto como político quase perfeito.

Sobre Michel Temer, apontavam só virtudes, o político que restabeleceu os princípios da república no Palácio do Planalto.

Cômico, não fosse trágico.

Há cinco meses, Augusto Nunes chegou a escrever um artigo para elogiar o general Sérgio Etchegoyen, que havia dado entrevista a Eliane Cantanhede, em que denunciou um suposto desligamento de câmaras do Palácio do Planalto, durante o governo da presidente Dilma Rousseff.

Não foi isso o que aconteceu.

Mas a “denúncia” fazia sentido à tese: Dilma queria impedir registros em vídeo de quem ia ao Palácio, para impedir provas de corrupção.

Escreveu Augusto:

Felizmente, o governo de Michel Temer, em uma de suas primeiras decisões, restabeleceu o Gabinete de Segurança Institucional, que voltou a ter sob seu comando a Abin.

Augusto e Cantanhede deram crédito a um general que agora é denunciado pela mesma revista Veja como o comandante de uma ação de espionagem sobre o ministro Édson Fachin.

Ah, mas o general ligou para a presidente do Supremo, Carmen Lúcia, para desmentir a notícia.

Carmen Lúcia não acreditou e divulgou nota em que exige apuração.

Foi mais esperta que os porta-vozes da direita na imprensa.

Esse pessoal se agarra onde pode para continuar alimentando um público que não quer informação ou análise, mas linchamento.

Haja criatividade.

A desculpa agora para manter Temer é a crise – crise, já ensinou Milton Friedman, é o forno ideal onde se assa o bolo das reformas neoliberais.

É preciso estar atenta a elas, porque se apresentam como uma porta de oportunidades para destruir o que, em outros tempos, já se chamou de estado do bem estar social.

É a receita de Friedman – está nos seus escritos.

Crises podem surgir espontaneamente, mas também podem ser criadas ou maximizadas.

No Brasil, o discurso da direita hoje é: Vamos manter o ladrão lá, porque a crise nos ameaça.

Solução para a crise?

Que nada.

O que querem, no fundo, é manter o processo de rapinagem do patrimônio público.

Pode anotar: o discurso “é-preciso-manter-Temer-para-enfrentar-a- crise” é o que sustentará a posição do PSDB no governo.

A decisão será tomada nesta segunda-feira.

No dia seguinte, seus porta-vozes estarão escrevendo que o inimigo a ser enfrentado é outro: Lula, o chefe da quadrilha, com seu tríplex, reforma da cozinha e pedalinhos.

Seria cômico não fosse trágico.

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