Cacheados e crespos: novo filão

Com o fim da ditadura da chapinha, empreendedores resolveram ganhar dinheiro valorizando "o natural"

Do Diario de Pernambuco

Empreendedores vêm enxergando nos produtos e serviços para esse público um novo nicho de mercado e alternativa de vida. Foto: Julio Jacobina/DP

Não é moda ou simplesmente uma questão de estética. Com os ideais de aceitação de si mesmo e elevação da autoestima cada vez mais fortes, o empoderamento vem causando a valorização dos cabelos ondulados, cacheados e crespos da forma como eles são. A mudança de comportamento não é positiva apenas para as cacheadas e cacheados. Empreendedores vêm enxergando nos produtos e serviços para esse público um novo nicho de mercado e alternativa de vida.

Liliana Castro era secretária até 2015. O marido dela, Manoel Valença, analista de sistemas na mesma empresa. “Eu queria melhorar meu cabelo, pesquisei muito sobre o assunto e meu marido teve a ideia de aliar algo que gosto a um negócio”, conta Liliana. Foi quando decidiram criar o site Meu Cabelo Lindo (http://www.meucabelolindo.com.br/), que tem como foco produtos para os cachos. No começo, era bem pequeno, com a revenda de duas marcas, a Lola Cosmetics e a Deva Curl, na época ainda pouco comuns nas lojas da Região Metropolitana do Recife (RMR). Juntas, somavam cerca de 40 produtos. Atualmente, o casal vende mais de 30 marcas e cerca de 500 itens.

“A gente é mais forte no Nordeste, mas vendemos no Brasil todo”, comenta Liliana. Atualmente, os pedidos são realizados 50% por moradores do Nordeste e 50% do resto do país, sendo a região Sudeste o segundo maior comprador. Em fevereiro do ano passado, menos de um ano após a criação da loja virtual, os empresários abriram uma loja física nas Graças. Com ela, e o contato mais direto com as clientes, surgiu outra ideia. “Eu e meu marido já tínhamos sido demitidos, então as lojas passaram a ser nossas fontes de renda”. Para aumentar o fluxo de clientes, abriram o Spa dos Cachos, salão especializado em cortes para cacheadas e crespas. O espaço, pequeno e localizado no fundo da loja, realizava cerca de quatro atendimentos por dia. Como a procura pelo salão e produtos foi aumentando, eles se mudaram para um espaço maior e, sete meses depois, já contavam com duas funcionárias e o número médio de clientes por dia subiu para 20.

Outra empresa que percebeu o aumento da demanda e está investindo no mercado de produtos para cabelos cacheados é o Mundo do Cabeleireiro, que já tem 17 pontos de venda na RMR e um em São Paulo. De acordo com Juliana Almeida, coordenadora técnica capilar da empresa, essa maior demanda surgiu há cerca de três anos, mas se tornou mais forte no último. Hoje, a empresa já comercializa uma média de 20 a 30 linhas que têm em seu portfólio produtos voltados para cachos. “Temos produtos para cabelos cacheados em todas as lojas, porém em algumas unidades temos um ponto específico chamado Cantinho da Cacheada. A venda dos produtos ainda corresponde a uma fatia pequena no faturamento da empresa, em média de 1% a 2%. “Mas a demanda está crescente. Temos todos os dias marcas novas ingressando no mercado. A rotatividade dos produtos para cuidado dos cachos é alta”, diz Juliana. O Mundo do Cabeleireiro vai continuar investindo nesse mercado. Enquanto ele continuar em evidência e crescimento, a ideia é que o portfólio aumente e sejam sempre oferecidas novidades para as clientes.

Pernambucanas seguem mudanças

Os produtos para as onduladas, cacheadas e crespas não vêm apenas de fora. Em Pernambuco, a Rishon Cosméticos (tem produtos para cabelos e removedor de esmaltes), por exemplo, que tem sede no bairro de Afogados, vem enxergando o potencial desse mercado. A empresa conta com uma marca específica para esse público, a Tutanat, que tem as linhas Black Power, Cachos e Bang!. De acordo com a gerente de marketing da empresa, Renata Garcia, a linha Cachos já existe há cerca de dois anos. Já a linha Black Power foi lançada no fim do ano passado. A Bang! conta com uma variedade maior de produtos, não ficando restrito às cacheadas. “A Bang! é voltada para quem não tem poder aquisitivo alto, mas também quer produtos de qualidade”, explica. Ao todo, de um total de 112, são 16 produtos voltados para as cacheadas na Rishon. “Lançamos uma linha de óleos há um mês e já foi cadastrada em 62 revendedores”, disse.

Além do Nordeste, que é o maior mercado, a Rishon já distribui produtos para as regiões Norte e Sudeste. Em abril, a linha Bang! representou entre 25% a 40% do faturamento da empresa, enquanto a Black Power e Cachos foram responsáveis por 5% cada uma. Seguindo o crescimento, a empresa criou um hotsite exclusivo para as cacheadas, o Liberte Seus Cachos Já (http://liberteseuscachosja.com.br/), que conta com dicas de transição, de produtos e depoimentos.

Outra marca que se destaca na produção de produtos para cabelos ondulados, cacheados e crespos no Nordeste é a Brasilis Cosméticos, sediada em Piedade, Jaboatão dos Guararapes. A empresa começou em 2014 e conta duas famílias de produtos para cabelos, a Belle, voltada para salões de beleza, e a Vivá, para cuidados em casa. “Desde o início, a gente já tinha detectado esse mercado e a possibilidade de desenvolvê-lo”, conta Adriana Reis, uma das proprietárias. Em 2015, as sócias participaram de um encontro de cacheadas em Salvador e, desde então, vêm trabalhando com esse público, principalmente nas mídias sociais. “Estamos sempre participando dos encontros. É muito importante porque as blogueiras divulgam os produtos e fortalece o boca a boca”. Existem cerca de 50 pontos de venda dos produtos da Brasilis em Pernambuco e cerca de 10 fora do estado, incluindo Rio de Janeiro, Bahia, São Paulo e Rio Grande do Norte. Além disso, a empresa está de olho no mercado externo, com possibilidades de negócios para o Panamá e México. 

Acessórios como negócio

Nem só de movimento e definição se fazem os cachos. Como parte do empoderamento e itens da cultura negra, as faixas e turbantes deixam os cabelos bonitos, servem como acessório de destaque no look, levantam a autoestima e são queridinhos por quem está em fase de transição capilar. Sendo assim, esses itens de beleza também estão na mira de empreendedoras, como a técnica de enfermagem Mechaely Jennyffer de João, 29, que começou a investir nos turbantes oficialmente após sofrer preconceito.

Mechaely fazia parte de um grupo de oração em uma igreja, quando a dirigente a chamou em um local separado e disse que as outras mulheres da turma estavam reclamando do cabelo dela, que fazia referência a um espírito chamado “Nega Maluca”. “Eu vivi a demonização da negritude. Ela perguntou se eu podia prender ou alisar”, conta.

Mechaely, que tinha uma página no Facebook chamada Diva dos Cachos, na qual vendia acessórios, juntou força para lutar contra o preconceiro e lançou a Preta Micha, loja que vende turbantes. A demanda foi aumentando, e ficou difícil dar conta de tudo sozinha. “Comecei a revender. Vi que não seria prejuízo para mim porque ia divulgar a marca”, diz. No começo, investiu R$ 150 na Preta Micha. Agora, quinzenalmente, dedica um dia exclusivo à produção. Com os materiais, ela gasta entre R$ 350 e R$ 400, mas o lucro, segundo ela, compensa. “Tiro entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil”.

Para Cinthia Almeida, vice-presidente do Sindicato dos Empregadores de Salão de Beleza e Estética em Pernambuco (Sindesbe-PE), a tendência é de as empresas estimularem o cliente a ser quem é e gostar de si mesmo. Os salões de beleza, por exemplo, estão se especializando em cabelos crespos ou louros. “Isso é recente, mas o movimento está muito rápido”, diz. Para ela, com isso, o profissional precisou se modificar e sair da zona de conforto. A mudança começou há dois anos, mas deve continuar cada vez mais forte.

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