O GRITO DAS SANFONAS: "DEVOLVAM NOSSO SÃO JOÃO"

Por: Luce Pereira

Foto: Silvino/DP (arte)
Junho vai surgir amanhã, mas não se engane: não deve mais chegar embalado pelas promessas de encontro com as raízes, porque a cada ano os festejos juninos típicos do Nordeste sofrem ataques mais certeiros e a tradição vai virando poeira na memória. Cheiro de comida de milho, o som do forró pé de serra, os tiros dos bacamarteiros, as quadrilhas e adivinhações, as fogueiras e os fogos, tudo vai sendo substituído por uma versão comercial (e descartável) que afugenta, sobretudo, os ritmos da terra enquanto escancara as portas para visitantes que têm tanta intimidade com o forró quanto tocadores de pífano têm com a música feita por “sertanejos” do tipo Luan Santana.Tanto descaso e desrespeito com a identidade cultural da região se mostram tão brutais que o resultado não poderia se revelar mais previsível: dentro de poucos anos, o verdadeiro São João poderá ser visto, não vivido. Restarão os recursos audiovisuais para matar as saudades, isso se não houver reação capaz de preservar o que resta. Ao menos por parte de alguns músicos ela já começou, embora ainda esteja limitada apenas a exprimir o desgosto com o rumo que tudo está tomando. Culpa maior das prefeituras, que na eterna lua de mel com produtores das estrelas e bandas em evidência, transformam a grade de programação da festa em uma espécie de “momento alienígena”. Afinal, tanta estranheza dá a impressão que o Nordeste, em junho, é obrigado a mudar-se para outro lugar qualquer do país.

Incomodado com os ataques à tradição junina, responsáveis pelo encolhimento a cada ano do espaço para seguidores, discípulos ou simpatizantes do legado do Rei do baião, o músico Chambinho do Acordeon, que fez o papel do artista no filme Gonzaga: De pai pra filho, esperneia desde 2016 através de uma campanha que lançou com o título Devolva nosso São João. Nivaldo Expedito de Carvalho (seu nome de batismo) estava desempenhando o papel de Targino dos 120 Baixos na novela Velho Chico quando teve a ideia. Na ficção, a personagem se deparava com o problema enfrentado na vida real: ao perambular por vilarejos com sua sanfona, a música que tocava em redutos antes dominado pelo forró era a mesma contra a qual os músicos nativos de rebelam em tempos juninos. Pessoalmente, falta de trabalho não é o que inquieta Chambinho, que tem 25 shows na agenda por mês, mas a vida de sanfoneiros em condição bem menos privilegiada, gente que toca há décadas na festa e, de repente, tem a sanfona emudecida a um canto justamente no mês em que ela menos descansava.

A desilusão com a realidade é tão grande que Joquinha Gonzaga, sobrinho de Luiz e neto de Januário, declarou que o tio famoso, se ainda vivesse nos dias atuais, já teria desistido. Como Chambinho, Joquinha está fora do grande São João realizado por Caruaru e Campina Grande, dois dos maiores polos juninos do Nordeste, embora não tenha faltado apelo para que participassem. O próprio Dominguinhos, extraordinário sanfoneiro e compositor que conduziu mais de perto o legado de Luiz Gonzaga, sofreu na pele os efeitos do esgarçamento desta tradição: nos últimos anos de vida, chegou a ser preterido na grade de programação de cidades importantes do ciclo junino. Até mesmo seu cunhado, Savinho do Acordeon, irmão da cantora Guadalupe, há meses vem se queixando da terrível transformação através de sua conta em uma rede social. Considera imperdoável que as tradições tenham passado a valer tão pouco no comércio em que se transformou a festa.

São muitos os descontentes, inclusive com o perverso discurso de que “os tempos mudaram”. A quem entende assim, recomenda-se ao menos a leitura de uma conhecida citação que reluz no início de muitos trabalhos de conclusão do curso de pedagogia: “Um povo que não tem raízes acaba se perdendo no meio da multidão. São exatamente nossas raízes culturais, familiares, sociais, que nos distinguem dos demais e nos dão uma identidade de povo, de nação” (Pedroso, 1999). Nordestinos, afinal, é o que somos.

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