O que interessa às mulheres no caso José Mayer, por Nathalí Macedo


Susslem e Mayer

Imagina o José Mayer chegando no RH:

“Você tem que escrever uma carta”; “Mas eu já emiti falei que a moça fez confusão, que o assediador, na verdade, é o meu personagem na novela” “Isso não vai colar. As mulheres estão fazendo um pardieiro com camisas iguais lá embaixo no set. Daqui a pouco vem a midiazinha de esquerda batendo aqui. Elas estão falando até no Vídeo Show”

“E daí? Ninguém assiste ao vídeo show!”

Silêncio constrangedor seguido de muxoxo.

“Ah, e o próximo personagem, a gente acha melhor deixar pra lá. Sabe como é, só pra poupar a sua imagem.”

Embora, de início, possa parecer, não interessa linchar José Mayer — basicamente porque não interessa linchar ninguém, mas, antes disso, porque ele é um sujeito, como tantos outros sujeitos assediadores no Projac, nos escritórios, nas fábricas, nos estúdios de gravação e no meu antigo estágio.

Quem se atreveria a imaginar quantos assédios já foram abafados nos corredores do Projac? Quantos testes do sofá? Quantas mulheres, antes da corajosa Susllem Maneguzzi, deixaram de denunciar assédios por medo de perderem seus empregos? Quantas mulheres, aliás, continuam deixando – sob os holofotes ou longe deles – de denunciar assédios por medo de perderem seus empregos?

O caso de José Mayer é, seguramente, apenas a ponta do iceberg.

Apesar de compreensível a cólera — seguida do também compreensível gozo — das mulheres e de qualquer um com a mínima empatia diante desse caso, o que interessa é bem mais simples: as mulheres colocaram a boca no trombone.

Se reuniram numa noite de domingo e decidiram fazer alguma coisa para que nenhuma mulher voltasse a ser assediada no espaço em que trabalham. Sozinha, Susllem teria sido esquecida – talvez demitida, como a repórter assediada por MC Biel.

Esse é o ponto: mulheres estão cada vez menos sozinhas porque compreendem que, juntas, sua força tem uma dimensão talvez ainda desconhecida.

Tampouco interessam os motivos da Globo para apoiar a campanha.

“Porque o feminismo é rentável”, dizem, e é quase impossível discordar — mas isso, de fato, importa mais do que mulheres juntas ocupando um lugar de poder, resistindo a uma tradição de abuso?

Se a campanha é ou não um resultado da mercantilização do movimento feminista – flagrante, por exemplo, no último disco de Elza Soares, lançado para obstinadamente imortalizar hinos dos movimentos feministas e do movimento negro, e em tantos outros trabalhos artísticos que emergiram recentemente – importa pouco diante do fato puro e simples: um galã global precisou se retratar por assediar uma figurinista porque mulheres uniram-se em uma campanha para apoiá-la.

E não foi só uma notinha – estamos falando de um textão de respeito, cheio de humildade e termos bonitos.

As desculpas de José Mayer, aliás, além de coerentes, quase parecem sinceras, mas – se voltarmos à ideia de que ele é apenas uma ponta do iceberg que teve o azar de ser pego em meio a dezenas (centenas?) de outros colegas assediadores, e se pensarmos que ele retornaria em breve, com ou sem desculpas, ao horário nobre – isso também não importa tanto.

Ou ao menos não tanto quanto a simbologia do ato de se desculpar publicamente por um assédio.

Ao fim e ao cabo, nos interessa que assediadores – galãs ou não – cada vez mais pensarão duas vezes antes de assediarem mulheres, emitirem uma notinha esfarrapada e esperarem que todo mundo esqueça – você sabe, há sempre a possibilidade de fazermos um escândalo.

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Sobre a Autora 
Colunista, autora do livro "As Mulheres que Possuo", feminista, poetisa, aspirante a advogada e editora do portal Ingênua. Canta blues nas horas vagas.

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