Devagar com o andor das ilusões sobre a lista Janot, por Tereza Cruvinel*


Tenho lido por aí que as delações da Odebrecht e a lista de Janot são um horror mas são portadoras de esperança. Horror porque revelam que toda a elite política, desde sempre, foi alugada por empresários. Que a corrupção é uma prática geral e antiga e não foi inventada pelo PT. Mas, dizem editoriais e colunas, o mar de lama traz a esperança de mudança na cultura e nas práticas políticas, elevando a qualidade da nossa democracia um tanto fake. Quando os políticos e as eleições eram comprados, temos um simulacro de democracia. Contra estas ilusões, é preciso atentar para as consequências da lista de Janot. Segundo os melhores conhecedores do STF, nenhum dos nomes listados, se denunciado, será julgado antes de quatro anos.

Não é a condenação ou a prisão dos envolvidos que produzirás mudanças no sistema político, claro. O que move uma sociedade é a consciência de seu povo, e o nosso está sentindo a ficha cair. O golpe, agora está bem claro, foi mesmo uma tentativa de salvar toda esta gente que agora pode ser investigada. E todos são iguais perante a corrupção e o caixa dois. Mas quem promove as mudanças formais no sistema são seus agentes políticos. A turma da lista. E a turma, por ora, continuará em seus postos, dando as cartas, sabedora de que no STF os processos vão andar com a lentidão dos cágados. Vão aprovar uma reforma política de emergência e vão fixar regras para a eleição do ano que vem. Vão anistiar-se do caixa dois. E, se o povo não impedir, vão se eleger e se reeleger no ano que vem.

Quando o Supremo julgar a lista de Janot, já terá havido o rodízio de sempre nas elites. Os que agora caíram nos maus lençóis da Lava Jato vão colocar filhos e aliados em seus lugares, seja no Congresso, seja nos governos estaduais. E a vida seguirá. Teremos a ilusão de que tudo mudou. Mudou para que tudo possa continuar sendo o que sempre foi.

Para não parecer ceticismo diante da lista de Janot, recordemos os passos que agora serão dados.
  • O ministro Fachin autorizará os pedidos de investigação solicitados. Todos, alguns ou quase todos.
  • Os que forem investigados, depois de seis a oito meses poderão ser indiciados.
  • Mais um semestre se passará para que sejam denunciados.
  • O STF não tem prazo para acolher ou rejeitar a denúncia. Costuma levar até dois anos.
  • Os que forem denunciados vão se tornar réus, e só nesta condição ficarão proibidos de disputar eleições e de ocupar alguns postos. O STF pode levar pelo menos mais um ano para isso.
  • Finalmente, virá o julgamento. Terão se passado pelo menos quatro anos. Alguns poderão ser condenados. Será uma para o individuo, o agente político mas seu lugar no sistema já terá sido ocupado por outro da mesma classe, com os mesmos interesses. 
Pode não ser este o desfecho mas este depende de outro agente, o povo. As manifestações de ontem sugerem que a indignação letárgica começou a ser trocada pelas mobilização.

TEREZA CRUVINEL*
Colunista do 247, Tereza Cruvinel é uma das mais respeitadas jornalistas políticas do País

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